Segunda, 14 de Outubro de 2019
REGIÃO
Saiba a origem do nome de Cardeal da Silva que completa 57 anos de Emancipação Política
Imagem: Joaquim Argôlo.
Publicado em 30/07/2019

Hoje minha cidade natal, Cardeal da Silva, completa 57 anos. É uma jovem senhora descendente de um povo, Tupinambá, que por muitos e muitos anos preservou a mata atlântica, caçou, pescou, brincou, persistiu, amou e evocou os encantados no litoral norte da Bahia. Ao que tudo indica, o primeiro nome da localidade foi Pindorama, como era conhecida a faixa de terra que ia da Palmeira até Subaúma.

Com a construção da capela sob a invocação de Nossa Senhora Divina Pastora, a Padroeira passou a nomear o lugar: Divina Pastora, no início do século 19. Conta-se inclusive que a imagem foi trazida de Lisboa por navio até Salvador, de barco até Baixios e de carro-de-boi até seu destino final, a atual Praça Divina Pastora. Em meados do século 20, encurtaram o nome da localidade para Pastora e, 20 anos depois, o distrito foi desmembrado de Entre Rios sob o nome de Cardeal da Silva.

Muita gente ainda não entende como se deu essa última mudança. Há até quem confunda o nome da cidade com uma ave tão conhecida na cidade, o Cardeal. Lembro-me de dona Lourença, no alto dos seus 119 anos (em 2017, ela morreu com 122), reclamando que “Cardiá quem chama é o pessoá. Nós só chama a Pastora, que Cardiá é um passarinho que avoa, da cabeça vermelha”. E tantas e tantas vezes ouvi a reclamação: como é que trocam o nome de uma santa por um cardeal?

Eu também não sabia responder e ninguém havia me explicado direito essa história até que, em 2015, iniciei uma pesquisa com a professora Vanise Albuquerque e, em junho daquele ano, conversamos com um dos principais responsáveis pela emancipação política do município de Cardeal da Silva: José Antônio de Araújo Pimenta, doutor Pimenta ou Pimentinha, como queiram. Ele e Tiago Ferreira de Carvalho foram os grandes articuladores da emancipação de Cardeal. Com paciência e generosidade, ambos nos contaram a história de um milagre que só pode ter sido obra de Divina Pastora.

Era o ano de 1959 e o padre Palmeira - angustiado com a resistência de seu superior, o arcebispo primaz do Brasil, Dom Augusto Álvaro da Silva, que não admitia a entrada de sacerdotes na vida política - utilizou o seu cargo de deputado estadual, ameaçado pelas investidas de arcebispo, para apresentar à Assembleia Legislativa três projetos em homenagem ao Cardeal-presbítero de Santo Ângelo em Pescheria, Dom Augusto. Assim, ele pretendia “quebrar a crista do Cardeal”, segundo nos contou Pimentinha, em tom irônico.

O primeiro projeto deu a Dom Augusto o título de cidadão baiano (ele era natural de Recife-PE); o segundo ordenou ao governo da Bahia o custeio das despesas em comemoração ao cinquentenário de sagração episcopal do Cardeal, que havia sido eleito o primeiro bispo de Floresta-PE em 1911; já o terceiro e último projeto não poderia ser mais honorífico: a criação do município de Cardeal da Silva.

A questão é: como o Padre Palmeira resolveu emancipar um distrito que ele nem conhecia, distante mais de 500 quilômetros da sua base eleitoral, que era a região de Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia? A explicação parece irreal, mas até o momento não se tem outra para justificar aquela inesperada decisão: o Padre Palmeira pegou uma caneta, fechou os olhos e, em giros desgovernados de 360 graus sobre o mapa da Bahia, parou em cima da Vila Pastora.

Depois da descoberta daquela Vila que ele provavelmente nunca ouvira falar, deve ter tido algum bom presságio, porque não demorou muito a apresentar o projeto para a criação do município de Cardeal da Silva, com sede no distrito da Vila Pastora. A notícia foi estampada em um jornal do estado e surpreendeu os moradores do distrito. Afinal, nem o mais otimista morador daquele lugar imaginaria que fosse tão fácil criar um município. E, de fato, não foi.

As coincidências, entretanto, contribuíram bastante para que o projeto avançasse e obtivesse êxito. A casualidade pioneira foi a união dos moradores do distrito em torno de uma representação política, com a eleição do primeiro vereador natural do distrito de Vila Pastora, o próprio José Antônio de Araújo Pimenta, para a Câmara Municipal de Entre Rios, em 1958, mesmo ano em que o Padre Palmeira elegeu-se para a Assembleia Legislativa. A escolha de Pimentinha, na época estudante de Engenharia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), se deu por conta da sua experiência no movimento estudantil.

A emancipação do distrito já estava na agenda das lideranças locais há um bom tempo. Antes mesmo da eleição de Pimenta para a Câmara, tornar a Vila Pastora independente de Entre Rios era um anseio do dono da Fazenda Gameleira, o doutor Aurélio Brito de Menezes, engenheiro e professor da Escola Politécnica da Ufba. Respeitado entre os munícipes da capital, doutor Aurélio chegou a ocupar o cargo de prefeito de Salvador entre julho e novembro de 1932. “Era homem de importância e todo mundo considerava. Ele tentou algumas vezes fazer com que a nossa vila fosse emancipada e não conseguiu”, afirmou Pimenta.

As investidas fracassadas de doutor Aurélio aumentaram a incredulidade sobre o êxito da iniciativa da dupla Pimenta e Tiago. “O doutor Aurélio não conseguiu como é que vocês, uns pés-rapados, vão conseguir?”, questionavam os conterrâneos. “Nós, pés-rapados, trabalhamos e o município foi emancipado, apesar de todas as circunstâncias negativas que tínhamos”, recordou Pimenta. Essas circunstâncias diziam respeito às objeções de seus colegas vereadores, que não queriam ver o distrito se tornar independente.

Para justificar a viabilidade da emancipação do município, o projeto inicial previa a incorporação dos distritos de Pastora, Cambuís, Subaúma, Porto Sauípe, Lagoa Redonda e Pedras, em Entre Rios, além de Palame, Baixios e Boa Vista, em Esplanada. Entretanto, a Câmara Municipal de Esplanada rejeitou integralmente a proposta de anexação de seus distritos e a Câmara Municipal de Entre Rios aprovou apenas a incorporação do distrito de Pastora e parte do distrito de Cambuís, que passou a ser denominado Santa Rita de Jangada.

Mesmo com o projeto original frustrado e a sistemática oposição dos deputados Ênio Mendes e José Carlos Facó, a proposta do Padre Palmeira prevaleceu e a maioria dos parlamentares aprovou a criação do município de Cardeal da Silva, desmembrado de Entre Rios pela lei estadual nº 1.765, de 30 de julho de 1962, assinada em uma cerimônia que contou com a presença de Dom Augusto.

O município foi oficialmente instalado no dia 7 de abril de 1963, com a posse para um mandato de quatro anos dos seus primeiros oito vereadores: Agnelo Machado de Oliveira, Astério Afonso, Domingos Batista da Costa, Gerson Fiscina de Carvalho, Manoel Borges de Argolo, José Antônio de Araújo Pimenta, José Osete de Carvalho e Wilson José Mendes de Araújo, e do primeiro prefeito, João Xavier da Costa.

Há três anos, a emancipação política de Cardeal da Silva é celebrada sem a presença física de seu político pioneiro, Pimentinha, falecido no dia 6 de abril de 2016. Pela insistência e perseverança dele, de Tiago, do Padre Palmeira e de tantos outros intrépidos lutadores pela independência de Cardeal, o nosso eterno agradecimento.

Que Cardiá possa sempre avoar com a cabeça vermelha apontada para o bem viver, honrando o esforço de quem construiu a sua história com honestidade e abnegação.

Que o milagre de Divina Pastora siga vivo em cada cardinalense coração.

Viva Divina Pastora! Viva Cardeal da Silva! Viva nós!

Foto: Joaquim Argôlo, a quem agradeço a gentileza de ceder para esta postagem.

Por: Luis Osete
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